[originalmente publicado por Neil Gaiman em 16/04/2016]

Não tenho atualizado o blog há muito tempo, mas agora estou num trem e parece uma ótima hora para fazer isso. Hoje de manhã fui entrevistado por Charlie Russell para o documentário que ele está fazendo sobre Terry Pratchett. (Charlie fez os documentários sobre Terry Pratchett da BBC, Living With Alzheimer’s, Choosing to Die e Facing Extinction.)

Fizemos a entrevista em um restaurante chinês na rua Gerrard porque o meu primeiro encontro com Terry foi em um restaurante chinês, em fevereiro de 1985. Estava sendo fácil e agradável e, de repente, não era mais. Eu falava sobre a última vez que vi Terry, sobre o que conversamos, e eu me vi chorando incontrolavelmente, sem conseguir falar. Então me recompus e nós continuamos.

“Olha, isso não é nada profissional”, Charlie me disse quando a entrevista acabou, “e eu nunca disse isso para ninguém que eu entrevistei antes, mas você gostaria de um abraço?”. Eu disse que sim, que gostaria.

Ainda estou um pouco abalado. É como se toda a emoção que eu mantive controlada para a cerimônia pública do Terry, para o Terry como pessoa pública, na outra noite, entrou em erupção quando eu falei sobre as pessoas que éramos na vida privada.

A cerimônia, na outra noite, foi linda. Eu vesti meu fraque de luto que Kambriel fez pra mim e saí, à tarde, para comprar uma camisa branca e uma gravata preta. (Na verdade, comprei quatro camisas, o que, considerando o quanto eu visto camisas brancas, devem me servir até o fim da vida.)

img_20160414_192524_edit1

Li a introdução de A Slip of the Keyboard, que escrevi para Terry quando ele estava vivo. Fiquei triste no final, mas tudo bem. E me contive perfeitamente quando Rob, que é o incrível mão-direita de Terry, me deu de presente um chapéu de escritor, preto e enorme, que Terry tinha deixado para mim. Mas não pude colocá-lo na hora, não estava preparado. (Experimentei o chapéu depois, no vestiário. Na minha opinião eu parecia um cowboy rabínico assassino. Não que haja algo errado com isso.)

file2b14-04-20162b3_edit1

file2b14-04-2016_edit1

No fim da noite, Rob anunciou as novidades por vir e uma delas foi o filme de GOOD OMENS, escrito por mim. (Aliás, houve uma pequena confusão na maneira como ele anunciou isso, porque Rob estava falando, antes, sobre as cartas que Terry nos deixou, encontradas no cofre, e a pessoas entenderam que o Terry me pediu pra escrever o filme do além-túmulo. Na verdade, foi mais como um último pedido em vida.) (“Eu gostaria muito que isso acontecesse e eu sei, Neil, que você é um homem muito, muito ocupado, mas ninguém poderia fazer isso com a paixão que nós temos pela garota velha. Eu queria estar mais envolvido e pretendo ajudar em qualquer maneira que puder” ele escreveu depois que aceitei.)

Estive trabalhando no roteiro de Good Omens na maior parte do ano passado, desejando que ele estivesse aqui, nem que fosse só para atender o telefone. É difícil quando tenho um bloqueio e quero pedir um conselho a ele. É mais difícil ainda quando invento algo esperto ou engraçado e quero ligar e ler pra ele, e fazer ele rir ou ouvir ele apontar algum deslize meu. Nenhum de nós tinha a menor ideia se iríamos conseguir vender esse livro esquisito ou não, quando o estávamos escrevendo, mas sabíamos que podíamos fazer o outro rir. De qualquer forma, estou agora com 72% do roteiro pronto e já posso vislumbrar o final.

Minha meta é terminar o roteiro antes do lançamento do THE VIEW FROM THE CHEAP SEATS, meu livro de textos de não-ficção selecionados, que vai sair nos EUA e em UK no dia 31 de maio. Existem duas capas diferentes. A americana me mostra sentado, refletindo, em um teatro carcomido, a britânica me mostra com o cabelo esvoaçando ao vento e uma explosão de engrenagens saindo da minha cabeça. Ambas parecem bem certeiras, principalmente a explosão de engrenagens.

cheap2bseats2buk1

typo2bcheap2bseats2bcover1

(link da Amazon americana: http://bit.ly/VfCheapSeats, link e resenha da B&N: http://www.barnesandnoble.com/blog/sci-fi-fantasy/the-view-from-the-cheap-seats-offers-a-revealing-look-into-the-corners-of-neil-gaimans-mind/ e o link da livraria independente IndieBound: http://www.indiebound.org/book/9780062262264)

Eu estava, e ainda estou, receoso sobre soltar no mundo um livro de não-ficção. Não tenho receio em publicar ficção, mas tem uma parte de mim que se pergunta se tenho algum direito de balbuciar em público sobre o que acredito, o que espero e o que me preocupa, que se pergunta se alguém estaria interessado em ensaios sobre livros que, parece, (em alguns casos) ninguém se importa além de mim, ou sobre a situação dos quadrinhos em 1993, ou sobre como escrever uma resenha de um livro que você descobriu, quando o prazo final chegou, que perdeu. Mas algumas das primeiras resenhas parecem bem generosas, e o pequeno grupo de pessoas para quem eu enviei o livro me disse coisas gentis sobre ele (e todas elas me escreveram para me dar certeza que realmente leram e gostaram tanto quanto disseram gostar). Vai ter um evento para o lançamento do livro em UK que nós vamos disponibilizar ao vivo, então vai ser um evento online à tarde, ou no fim da manhã, nos EUA.

Gravei o audiobook quando estávamos em Santa Fé. Nunca gravei um livro de não-ficção em audiobook antes e estava incerto sobre o que fazer quando cheguei às entrevistas que fiz com Stephen King e Lou Reed, então dei o meu melhor.

Nós passamos o fim do inverno em Santa Fé. É uma cidade pequena e linda onde parte da família da Amanda mora, que é motivo pelo qual estávamos lá e não em outro lugar, e onde tenho amigos. (Almocei com George R R Martin. Disse a ele, soltando um suspiro: “Tão dizendo na internet que estou aqui para escrever o seu livro pra você”. Ele achou muito mais engraçado do que eu.)

Fomos à Meow Wolf, que é um antigo boliche em Santa Fé, onde hoje fica uma casa na Califórnia em que um evento causou distúrbios no tempo e espaço, levando a outras dimensões. É uma mistura louca e gloriosa de arte, estórias e Disneylândia e, se você estiver no sudoeste dos Estados Unidos, deveria visitar.

Ash cresceu. Faz sete meses hoje. Ele é o bebê mais doce, mais fofo. Ele sorri e é engraçado. Estou em Londres essa semana e sinto a falta dele.

img_20160402_0851522b2528225291

Nossa amiga Prune, que é francesa, disse que ele é como um “bebê que se exibiria em uma loja, se você quisesse comprar um bebê”.

“Você quer dizer, um modelo de vitrine?”

“Exatamente. O bebê modelo de vitrine”.

Eu o amo tanto. Ele gosta de música e estória, e também gosta de livros.

Aqui está uma foto dele gostando de um livro. (O livro de O dia de Chu foi um presente da minha agente, que achou engraçado eu não ter pensando em dar a ele um dos meus livros. Então, ela deu.)

img_20160226_1028202b2528125291

Ele gosta quando eu finjo um espirro.

Aqui está um vídeo dele de umas duas semanas atrás, vestindo o cardigan que Delia Sherman fez pra ele.

 

Anúncios